Já leu algo da literatura nigeriana? Ou, assim como eu, nunca parou para pensar no quão rica é essa cultura? Pois se a resposta for a segunda opção, indico que comece conhecendo a obra “As alegrias da maternidade”, de Buchi Emecheta. Mas vá com o coração preparado e a cabeça aberta. O livro é um verdadeiro soco no estômago.

O título não poderia ser mais irônico. Ele retrata a maternidade crua. De forma realista e sem a romantização que, muitas vezes, é imposta às mulheres. Sim, ele retrata as alegrias da maternidade. Mas também mostra a dura realidade de gerar e criar filhos em uma Nigéria colônia, por uma mulher quase analfabeta e cujo marido foi praticamente sequestrado para lutar a favor dos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial.

Em Lagos, onde Nnu Ego (a personagem central) vive, a população está, de certa forma, alheia aos conflitos. A única certeza que se tem é a instabilidade econômica. A mulher, educada com um único objetivo de servir ao seu marido e gerar filhos, agora precisa dar conta de alimentar, vestir e educar as crianças. No caso de Nnu Ego já eram muitos filhos à sua mercê e quase nenhum dinheiro. Mas ela era uma mulher de sorte, diziam.

Nnu Ego era filha de um grande líder da tribo Igbo e, como todas as mulheres de sua época, tinha essa única tarefa a cumprir: gerar filhos para seu marido. No seu primeiro casamento, ela não é bem-sucedida e o marido arruma uma segunda esposa – algo perfeitamente aceitável para os costumes do seu povo. Agbadi, o pai de Nnu Ego consegue “comprar novamente a filha” e a entrega para seu segundo marido, um homem que ela nunca tinha visto.

Seu povo culpa sua “chi” pela infertilidade de Nnu Ego. O chi, segundo os Igbos, é um deus pessoal que guia a pessoa. O chi de Nnu Ego era o espírito de uma jovem escrava que foi enterrada viva junto com sua dona e prometeu vingar-se da família do pai de Nnu Ego.

O irmão mais velho do marido de Nnu Ego falece e ele herda as esposas. Uma delas, jovem e bela, vai morar com a família e torna-se a segunda esposa de Nnaife Owulum. Nnu Ego deu à luz dez crianças. Algumas faleceram ainda bebês e a mãe morreu sozinha, no meio da sua aldeia. Mesmo após sua morte – dizem – Nnu Ego negava-se a ajudar as mulheres que lhe pediam filhos.

A história foi escrita na Nigéria. Em 1979. O enredo se passa no início até meados do século XX, no país africano. Mas o contexto poderia muito bem retratar a cultura e o machismo da nossa sociedade. Alguns conceitos são tão atuais e tão enraizados no nosso cotidiano, que chega a assustar quando nos vemos representadas em Nnu Ego. A maternidade é retratada de forma realista, mas sensível.

A obra de Buchi Emecheta praticamente esfrega na nossa cara as alegrias e as dores da maternidade, de uma forma que nos faz querer abraçar nossa mãe (o quem desempenhou esse papel) e pedir desculpas por cada vez que a contrariamos. A narrativa é envolvente a tal ponto que fica difícil fechar o livro e desligar-se de Nnu Ego e sua família. Precisamos de um período de “ressaca literária” para conseguir trabalhar com todas as emoções que essa obra provoca.

COMPARTILHAR

Deixe uma resposta