Poucos dias após a televisão brasileira passar por mais uma revolução, sugiro aqui um livro que trata, de certa forma, da história desse aparelho tão queridinho de todos. O livro é “Chatô, o rei do Brasil”. A obra, com suas 736 páginas, é uma biografia, na qual o jornalista Fernando Morais descreve sobre uma das figuras mais controversas da nossa história e faz um registro precioso do surgimento da TV no Brasil.
Apesar do tamanho – que pode parecer um pouco assustador – Chatô é uma obra que prende o leitor, revelando em cada página, momentos engraçados, trágicos e polêmicos. Dono dos Diários Associados, um verdadeiro império da comunicação com quase cem jornais, revistas, estações de rádio e televisão, e fundador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Assis Chateaubriand sempre esteve envolvido com a política e o cenário artístico brasileiro. Por isso, em muitos momentos, a contextualização sobre o cenário presidencial do Brasil é fundamental ao leitor. Fernando Morais faz essa descrição de forma leve e completa, deixando a leitura bastante fluída.
De origem pobre, Assis Chateaubriand nasceu na Paraíba em 1892. Descrito como “feio, raquítico, amarelo e opilado”, o menino era gago e só aprendeu a ler e escrever aos nove anos de idade. Apesar disso, Chatô estudou na Faculdade de Direito, em Recife, onde se tornou professor de filosofia do direito, além de falar alemão e francês.
Chatô iniciou sua carreira jornalística escrevendo para a “Gazeta do Norte”, o “Jornal Pequeno” e o “Diário de Pernambuco”. Após mudar para o Rio de Janeiro, começou a construir seu império e, em 1950, inaugurou a TV Tupi – a primeira emissora de televisão brasileira e a quarta do mundo. Essa fase é repleta de passagens no mínimo, curiosas.
Para realizar a primeira transmissão da sua emissora de televisão, Chatô importou – de forma clandestina – cerca de duzentos aparelhos receptores de TV e espalhou pela cidade. Um dos aparelhos foi enviado “de presente” para a sede do governo, cuja capital ficava no Rio de Janeiro. Hebe Camargo, Mazzaroppi e Lolita Rodrigues participam do primeiro programa de TV apresentado no País, no dia 18 de setembro de 1950, e que é descrito em detalhes no livro.
Além da TV e dos jornais, Chatô também foi o criador da revista O Cruzeiro, um marco da comunicação brasileira. Sua ambição era tamanha que ele ficou conhecido por atacar seus inimigos e reverenciar seus amigos através dos seus meios de comunicação.
Ajudou Getúlio Vargas na Revolução de 1930, foi senador e embaixador do Brasil na Inglaterra. Chatô ainda presenteou a Rainha Elisabeth com um colar de diamantes e consagrou William Churchil “Cavaleiro da Ordem do Jagunço”, ordem fictícia com a qual homenageava seus amigos. Na vida pessoal, Chatô foi casado três vezes e teve três filhos. Mas, por sua vida boêmia e infiel, detalhadamente revelada em sua biografia, seus casamentos não duraram muito. No exterior, ele ficou conhecido com Cidadão Kane brasileiro, em alusão ao filme de Orson Welles.
A leitura dessa obra é algo que diverte tanto quanto enriquece o conhecimento sobre a história do Brasil. Vale a pena conferir por essas e tantas outras peripécias que não caberiam nessa coluna.

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