Antes de começar a falar propriamente do livro que me propuz, quero contar que me arrependo apenas de uma coisa: ter resistido tanto anos ao Nelson Rodrigues. Sou particularmente fã de clássicos. Amo Machado, Drummond e Bilac, por exemplo. Mas nunca tive vontade de me debruçar sobre Nelson Rodrigues.

A fama de ácido e do humor peculiar me causavam inúmeras ressalvas, que podemos chamar aqui, de preconceitos. Esse livro me chegou de surpresa pela Tag – Experiências literárias*, então, resolvi finalmente me render e descobrir porque, mesmo após cinqüenta anos, ele continua sendo considerado tão atual pela crítica.

O Casamento foi escrito em 1966e é a única obra escrita por Nelson Rodrigues sob o formato de romance. Há quem diga que o enredo e a linguagem empregadas fazem uma crítica à sociedade da época. Fato é que a história é envolvente e não cansa de surpreender o leitor. Glorinha e Teófilo estão prestes a casar. A história toda acontece nas 48 horas que antecedem a cerimônia.

Sabino Maranhão, pai de Glorinha, descobre, em uma consulta ao médico da família, que Teófilo foi pego cometendo atos homossexuais. Isso seria um escândalo!Glorinha certamente poderia cancelar o casamento por isso. Mas o pai prefere, em um primeiro momento, negar a informação à filha, afinal já havia gastado horrores na cerimônia, os presentes já estavam chegando e havia a questão social que um rompimento àquela altura causaria.

A partir dessa descoberta, os personagens vivem uma sucessão de situações que rasgam os tabus ainda existentes no nosso cotidiano – quem dirá em 1966. Há uma obsessão pelo sexo durante toda a obra, que expõe os desejos mais crus da natureza humana.

Assuntos como homossexualidade, incesto e adultério aparecem no enredo e as cenas surpreendem o leitor a cada página, tornando o livro uma espécie de doce que tem um fundo amargo. A linguagem simples e direta funciona como uma droga viciante, ao mesmo tempo que as cenas causam choque pelas descrições detalhadas dos momentos mais íntimos dos personagens.

Por outro lado, o leitor mergulha na intimidade dos personagens criados, que adquirem características reais, deixando de lado qualquer expectativa criada antes de virar a página.

Uma coisa é certa: Nelson Rodrigues tira várias máscaras da sociedade e a despe para si mesma. É preciso romper o moralismo para abrir as páginas escritas por ele. Sem dúvida, essa obra tem grandes motivos para ser relacionada entre as grandes obras da literatura brasileira, ao mesmo tempo em que Nelson Rodrigues jamais deixará um leitor indiferente. Você certamente o amará ou odiará. Mas vale a pena ler e tirar suas próprias conclusões.

*A Tag é uma espécie de clube de leitores. Você se associa através do site homônimo e recebe mensalmente um livro indicado por um escritor nacional. Você saberá o título do livro do mês quando a caixinha chegar na sua casa. Junto com o livro, vem um mimo relacionado à história.

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